Quem espalha fake news, jornalista não é

Todo mundo sabe o que é #fakenews. O termo é antigo, usado desde o final do século XIX, mas realmente se popularizou nos últimos anos, expressando o ato de difundir informações falsas, irresponsáveis e enganosas, que geralmente são publicadas nas redes sociais, mas às vezes, são repercutidas até mesmo por órgãos tradicionais da imprensa. Além de arruinar reputações, destruir carreiras, incentivar a violência e estimular perseguições, as fake news já foram responsáveis por crimes irreparáveis.

O mundo das mídias sociais exige que as pessoas prestem extrema atenção na qualidade da informação que estão consumindo, e principalmente, compartilhando. A verdade é que a qualidade da informação que consumimos tem empobrecido cada vez mais, e esse cenário tem muito a ver com a crise mundial do mercado de comunicação e jornalismo.

A minha profissão tem decaído a cada ano que passa. Desde 2009, não é necessário diploma em jornalismo para atuar profissionalmente, por decisão do Supremo Tribunal Federal. A partir daí, qualquer pessoa pode se autoproclamar “jornalista”, mesmo sem experiência ou sem ter cursado uma faculdade. Simbolicamente, a falta da exigência de um diploma enfraquece e desmerece a profissão como um todo.

Mais recentemente, a medida provisória 905/2019, que criou o programa Verde Amarelo (e que será reeditada) acabou definitivamente com a exigência de registro profissional para jornalistas, publicitários, radialistas, químicos, arquivistas e até guardador e lavador de veículos. É muito triste para mim, uma jornalista formada, estar em uma lista de categorias junto com guardadores de carros. A profissão tão nobre de jornalista é cada vez mais desvalorizada no Brasil e no mundo.

O ponto a se ressaltar aqui é que um verdadeiro jornalista não cria nem divulga fake newsUm jornalista escreve notícias. Quem se presta a divulgar falsidades são pessoas que se dizem jornalistas, mas não são. São pessoas com interesses escusos, que compartilham boatos, mentiras, enganação, acusações. Aliás, não existem fake news. O mais correto seria defini-las como são: mentiras.

O que acontece conosco, jornalistas, é que por vezes, divulgamos uma informação errada, por descuido ou desconhecimento. Daí vem uma “errata” para corrigir depois. Mas um veículo de comunicação de verdade, formado por jornalistas profissionais, não publica mentiras, boatos, insinuações ou ataques. Reportamos fatos. Existe um método que seguimos para fazer uma reportagem, onde os fatos são apurados para levantar as informações e levar a versão mais correta e fiel possível ao leitor, ao ouvinte ou ao telespectador.

Desde a eleição de Donald Trump, em 2016, as fake news são um instrumento usado com mais frequência em fins políticos, e o gabinete do ódio comandado pelos aliados do presidente Bolsonaro utiliza-se desse mesmo artificio, com maldades espalhadas pelo seu exército virtual de militantes, contaminando todo o ambiente das redes sociais.

É importante definir qual a fonte da informação que vamos escolher consumir. As redes sociais simplesmente não são confiáveis. Uma pesquisa divulgada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com base no aplicativo “Eu fiscalizo”, mostrou que 73,7% das informações e notícias falsas sobre o novo coronavírus circularam pelo WhatsApp, 10,5% foram publicadas no Instagram e 15,8% no Facebook.

Se existe algo que essa crise está mostrando é o papel fundamental da imprensa séria, para divulgarmos informações que conscientizam as pessoas e salvam vidas. Desejo muito que a nossa profissão seja valorizada e respeitada novamente, como já foi um dia. E que essa pandemia acabe, e a imprensa tenha seu papel reconhecido pela sociedade, mais consciente e mais atenta à qualidade da informação.

Manual prático — Como identificar fake news?

1. Analise a fonte
Veja se o site é confiável e repare nos outros conteúdos publicados no site ou na mensagem

2. Analise o texto
Leia com muita calma. Observe se o texto possui títulos sensacionalistas, erros de ortografia, palavras escritas com letras maiúsculas, exclamações e excesso de pontuação, abreviações, excesso de adjetivos, opiniões, críticas, palavras de baixo calão e falta de indicação da fonte das informações.

3. Pesquise
Os textos normalmente não apontam o nome do autor do texto nem informações de contato. Existem sites que inventam jornalistas ou atribuem textos a profissionais conhecidos. É só pesquisar as referências no Google antes de compartilhar com alguém que você vai descobrir se a informação é verdadeira ou não.

4. Cheque o conteúdo
Leia a notícia até o fim, pois às vezes o conteúdo não é 100% mentiroso, mas foi manipulado ou usado fora do contexto. Pesquise também a data da publicação, para verificar se está atualizada ou se foi usada fora do contexto original.

5. Confirme
Cheque se a mesma notícia saiu em outro jornal, portal, revista ou site conhecido (UOL, Terra, G1, etc). Se não tiver aparecido em outros sites ou jornais, provavelmente é uma notícia falsa ou enganosa.

6. Não compartilhe
Nunca compartilhe conteúdo por impulso. Você é pessoalmente e legalmente responsável pelas suas palavras e ações em qualquer lugar que esteja, inclusive no ambiente virtual.

7. Denuncie
As plataformas possibilitam denunciar qualquer conteúdo suspeito como “falso”, normalmente clicando no lado direito da publicação. É importante denunciar, para que essa prática torne-se cada vez mais difícil para quem tem interesses escusos.

8. Utilize sites de confirmação de dados (fact checking)
Normalmente já no item 3 (pesquisa), caso a notícia seja realmente enganosa, será mostrado um link dos sites abaixo, de fact checking (checagem de fatos) que se dedicam a combater a disseminação de fake news na Internet:

Fato ou Fake (g1.globo.com/fato-ou-fake)
É uma iniciativa do Grupo Globo para verificar conteúdo suspeito.

Comprova (projetocomprova.com.br)
Projeto de checagem de fatos com jornalistas de 24 diferentes veículos.

Aos fatos (aosfatos.org)
Agência especializada na checagem de fatos contratada pelo Facebook.

Lupa (piaui.folha.uol.com.br/lupa)
A agência Lupa, ligada ao jornal Folha de S. Paulo, foi a primeira do Brasil dedicada estritamente ao que se chama de fact checking.

Boatos (www.boatos.org)
Site criado em 2013. Seu objetivo é publicar verificações de notícias populares na web.

E-Farsas (www.e-farsas.com)
É o mais antigo serviço de verificação de notícias falsas, lançado em 2001.

E por último, para temas ligados ao Covid19, é recomendável acessar o serviço “Saúde Sem Fake News”, o WhatsApp do Ministério da Saúde, pelo número (61) 99289–4640.

Fontes: Agência Brasil, Ministério da Saúde, Techtudo, Superinteressante e Mundo Educação

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