Um mundo novo para as entidades nikkeis, pós Covid-19

O mundo não parou, ele simplesmente mudou. O meu primeiro contato com o Covid-19 foi há exatamente 1 mês. Há semanas, planejávamos o II Simpósio de Organizadores de Festivais do Japão, que traria palestrantes do Brasil, Peru e México, além de 200 convidados de todo Brasil para uma programação intensa de networking e troca de informações.

O evento estava programado para sábado e domingo, 14 e 15 de março, e tudo corria bem. Na sexta-feira 13, quando chegamos ao local, fomos informados que o prefeito Bruno Covas havia proibido a realização de eventos no município de São Paulo, por conta da Covid-19. Não explicaram que o decreto não se aplicava aos eventos privados, somente aos públicos.

Confesso que naquela hora, considerei a medida exagerada. Enfim, após os devidos esclarecimentos e acertos, mantivemos a programação apenas no sábado — com certo receio e muito cuidado. O palestrante do México veio (e ninguém ficou doente, graças a Deus). Por incrível que pareça, aqueles foram os últimos dias “normais” que vivemos, pois logo depois entramos em isolamento social.

Em poucos dias, a Covid-19 mudou completamente nossas vidas e nossas rotinas, e na minha opinião, as entidades da comunidade nipo-brasileira precisam se preparar muito bem para se adaptar ao novo mundo que nos aguarda. Será necessário que as entidades se adaptem imediatamente à Internet. Eventos não podem ser realizados no momento, e mesmo quando voltarem, não terão a mesma escala e alcance. O cenário provável é que não teremos mais recursos para manter tantas entidades, cada uma trabalhando individualmente.

“O mundo mudou, e aquele mundo (de antes do coronavírus) não existe mais. A nossa vida vai mudar muito daqui para a frente, e alguém que tenta manter o status quo de 2019 é alguém que ainda não aceitou essa nova realidade”, disse Átila Iamarino, doutor em microbiologia pela Universidade de São Paulo e pós-doutor pela Universidade Yale, para a BBC Brasil.

A OMS (Organização Mundial de saúde) estima que uma vacina leve 18 meses para ser desenvolvida, afetando as nossas vidas por cerca de 2 anos. Essa pandemia vai fazer mudanças que levariam décadas serem feitas em semanas ou meses. As empresas vão se reinventar, o trabalho será home office, as aulas serão online, a economia e as pessoas vão sofrer. Por outro lado, iniciativas de solidariedade também serão celebradas, e a nossa comunidade sairá fortalecida.

Confira minha análise com algumas tendências para as entidades da comunidade nipo-brasileira:

1. Solidariedade em alta

A nossa comunidade tem muita união e coração solidário, e como isso é bonito! Temos visto as principais entidades beneficentes da comunidade nikkei (nipo-brasileira), como Ikoi-no-SonoKibo-no-IêKodomo-no-Sono e Wajunkai se movimentando para promover diversas campanhas online. Além disso surgem iniciativas diferentes e inspiradoras, como a chef Telma Shiraishi liderando projeto de refeições para a população de rua e jovens comunicadoras como Claudia Nakazato (Yomitai), Tábita Saez Takayama (Vem pra Liba), Yumi Kakida (Itigoo), Thais Kato (Tsuru pela Vida) e Patrícia Takehana (Japao.br) — além desta que escreve esse artigo — doando seus talentos para a divulgação da cultura e da comunidade nikkei.

2. Menos é mais

É fato comprovado, a crise financeira fará com que as pessoas recebam menos dinheiro, muitos não sabem como pagar as contas no fim desse mês. Dessa maneira, todos serão obrigados a reduzir hábitos de consumo e economizar. Além de não poderem contar com a receita dos eventos, as entidades verão o fluxo das doações diminuírem. Será necessário fazer uma profunda e dolorosa transformação, pois chegará o momento em que a comunidade simplesmente não terá mais fôlego para sustentar essa estrutura. Quando falamos no panorama Brasil, são mais de 400 entidades nikkeis em todo País. Será que faz sentido manter tantos kaikans (entidades) e kenjinkais (associações de províncias), com todos os custos de manutenção e operação inerentes à cada entidade? Uma cidade pequena precisa mesmo de 5 entidades nikkeis? Uma cidade grande precisa de um kaikan em cada bairro? Precisamos de tantas entidades diferentes, fazendo a mesma coisa? É algo para se pensar, não é mesmo?

3. Mudanças nos eventos e nos expositores

Os estudos mostram que mesmo depois que o isolamento acabar, a pandemia vai estimular novos hábitos entre a população, como receio de aglomeração, receio de contato físico e o medo de ficar em locais fechados, sem circulação de ar. Teremos que buscar oferecer o máximo de segurança, conforto e tranquilidade ao público nessa nova psicologia de eventos, criando uma sensação de “estar em casa”, importante especialmente nos pavilhões fechados, além de adaptar toda a arquitetura dos nossos eventos, nossas áreas e nossos expositores, de modo a prevenir aglomerações e facilitar o acesso aos produtos de higiene, como álcool gel e sabonete. E no aspecto financeiro, talvez seja necessário diminuir o valor dos ingressos e os preços praticados na praça de alimentação e expositores, e pensar em novas plataformas de vendas e captação de recursos, como e-commerce e crowdfunding.

4. Novos modelos de vendas da praça de alimentação

Nesse período em que não podemos promover eventos, ou mesmo durante os eventos futuros, talvez o sistema de venda delivery ou takeout possa funcionar bem para algumas entidades que são especialistas em determinado prato. Será uma venda solidária, para garantir que a entidade não fique sem recursos. O serviço de entregas continuará em alta por muito tempo e pode se transformar em uma boa fonte de receitas, pois afinal, quem nunca sonhou em receber o maravilhoso sonho da Kibô-no-Iê em casa?? Seria (literalmente) um sonho realizado!! Espero que alguém da diretoria da Kibo leia esse texto!! Sabemos que essa logística não é usual para as associações e entidades nikkeis, e isso nos leva ao próximo ponto…

5. Adaptação às tecnologias

Em todas as entidades que participo, falo muito da importância de estar na Internet e manter presença e interação nas mídias sociais. Mas a maioria absoluta das entidades nikkeis não possuem nem mesmo site ou email, quanto mais Facebook, Instagram, Twitter, Youtube, atendimento via Whatsapp ou Telegram (ferramentas básicas de social media). Os mais velhos insistem em reuniões presenciais, sendo que hoje podemos fazer call ou videoconferência no Skype ou Zoom. Esse cenário de crise mostrará que só vai sobreviver aquela entidade que souber se integrar perfeitamente no ambiente online. A gente já vivia conectado ao celular. A diferença é que agora, só temos essa única conexão com o mundo. As entidades que não fizerem um trabalho proativo nesse ambiente, vão acabar.

6. Aprender com os mais jovens

Essa é a parte mais difícil. Os dirigentes e lideranças das entidades precisarão de muita humildade para enxergar que eles precisam aprender junto com os mais jovens sobre como caminhar e se posicionar nesse mundo novo, para que suas entidades continuem existindo. Muitas vezes os jovens passam as ideias e os conceitos para os mais velhos e são simplesmente ignorados; fazer isso hoje é praticamente condenar a entidade, pois não existirá sobrevivência no modelo tradicional, fora da Internet.

7. Falta de voluntários e novas lideranças

Não é muito difícil adivinhar que a maioria dos voluntários das entidades pertencem ao grupo de risco, pois são mais velhos, e por isso, precisam (ou deveriam) se resguardar. Dessa maneira, as entidades acabarão sofrendo com a falta de voluntários para manter suas atividades. Nesse sentido, as associações que pensaram na frente e prepararam lideranças jovens já lideram o cenário, pois terão pessoas fora do grupo de risco para manter pelo menos as atividades básicas com segurança. Para as entidades que ainda não possuem grupo de jovens, é urgente um plano de ação nesse sentido, visando a continuidade.

8. Novos voluntários em potencial

Outro ponto é que pela primeira vez em nossas vidas, temos muitos voluntários em potencial, que poderiam estar ajudando as entidades de alguma maneira, pois temos tempo — o ativo mais importante — para doar. E após a pandemia, com a tendência do home office, é possível que as pessoas dediquem alguns horários livres em suas agendas para o trabalho voluntário remoto, via internet. A Kodomo-no-Sono está utilizando essa possibilidade com brilhantismo, solicitando voluntários para ajudar no projeto da Nota Fiscal Paulista, e o projeto Abraço está mobilizando voluntários que saibam costurar máscaras cirúrgicas. São ações pequenas que podem trazer grandes resultados.

9. Tecnologia e experiências culturais imersivas

Iniciativas como a imersão “Japão em Sonhos” (Japan House) e “Japão Digital” (Pavilhão Japonês) são uma tendência para os nossos próximos eventos, pois conectam o real com o virtual e promovem uma experiência de imersão, que nos remete à sensação de conforto e “estar em casa”, em estado contemplativo, tranquilo. Os eventos e entidades da comunidade nipo-brasileira podem se aproveitar também de seus acervos para promover tours virtuais e oferecer conteúdo online, para uma experiência interativa e cultural.

10. Educação e entretenimento online

Outra tendência fortíssima é o EAD — Educação à Distância, cuja expansão vai se acelerar no Brasil e no mundo. As entidades nikkeis podem preparar cursos, aulas, palestras, seminários, shows e lives online, com o intuito de divulgar os trabalhos e monetizar seus projetos. Esse conteúdo poderia ser feito em português e até mesmo em japonês, para atrair o público nipônico. Sem querer me repetir, mas mostrando que está muito antenada com o momento atual, um ótimo exemplo é a Kodomo-no-Sono, que pegou carona nas lives dos artistas nacionais e internacionais e vai promover uma live com o cantor Rick Akio.

Na minha avaliação, são iniciativas como essas, seguindo tendências, que vão possibilitar um novo caminho para as entidades nipo-brasileiras, para que elas possam se reinventar e alcançar novos patamares, nesse novo mundo que estamos criando juntos. E você, como enxerga o mundo pós-Covid19?

Jornalista, coordenadora de eventos e consultora, ERIKA YAMAUTI é considerada uma das principais lideranças jovens da comunidade nipo-brasileira. Desde 2008 é uma das coordenadoras gerais do Festival do Japão. Foi bolsista 2017 do “Programa de Convite a Descendentes de Japoneses da América Latina” e iniciou sua atuação na comunidade nipo-brasileira em 1998, na Comissão de Jovens da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa (Seinen Bunkyo), da qual foi presidente em 2004, apoiando comemorações históricas como o Centenário da Imigração Japonesa, em 2008, e os 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil, em 2018, entre outros projetos e entidades.

Publicado originalmente na edição 2775 do dia 21 de abril de 2020 – Jornal Nippak.
Link: https://www.jnippak.com.br/2020/erika-yamauti-um-mundo-novo-para-as-entidades-nikkeis-pos-covid-19/

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